Eduardo Ferreira
(ferreiraedu@terra.com.br)

POLÍGONO DE TIRO TENENTE GUILHERME PARAENSE

1. HISTÓRICO
Em 05 de maio de 1989 era inaugurado solenemente o Polígono de Tiro da AMAN pelo General Leonidas Pires Gonçalves, então Ministro do Exército, que numa justa homenagem ao ganhador da primeira medalha olímpica brasileira de ouro, nomeou o polígono de “Tenente Guilherme Paraense”,

Ao General Leônidas, que foi um antigo atirador-atleta do Fluminense Futebol Club e idealizador do projeto da expansão da AMAN, coube a honra de disparar o primeiro tiro no moderno estande, velho sonho de antigos atiradores do Exército que aspiravam um dia competir num estande de primeiro mundo no Brasil. E esse sonho se tornou uma realidade por intermédio da visão deste grande chefe que escolheu precisamente a Academia Militar de Agulhas Negras como o local ideal para a aprendizagem do tiro de instrução militar e para as competições oficiais do Tiro Esportivo.

Na realidade, a história do estande começou um ano antes. Em 1988 o Estado-Maior das Forças Armadas, antigo EMFA, por intermédio da sua Comissão Desportiva Militar do Brasil (CDMB), cujo Secretário-Executivo era o Coronel Aviador Walmiky Conde, durante uma Assembléia Geral do CISM se candidatou para sediar e organizar um Campeonato Mundial de Tiro Militar no Brasil em 1989. Para a felicidade do Tiro, nessa ocasião, o Exército Brasileiro estava com um projeto de ampliação da AMAN em andamento e o Ministro Leônidas, sensível ao problema e por ser um apaixonado pelo esporte, aproveitou o ensejo para a construção de um estande para esse fim.

2. CONSTRUÇÃO DO POLÍGONO
Assim, nas obras de ampliação da Academia em 1988, o Ministro Leônidas determinou ao Departamento de Engenharia do Exército (DEC), chefiado pelo General-de-Exército Athos Cezar Baptista Teixeira, que desse início aos estudos para a construção de um estande completo que atendesse simultaneamente as necessidades da instrução militar dos cadetes e que pudesse sediar competições a nível internacional, tendo para tal, a necessidade da instalação de sofisticados equipamentos eletrônicos.

E assim foi feito. A Comissão Especial de Obras (CEO/1), encarregada das obras em Resende, começou a trabalhar no projeto de ampliação da Academia, sendo que o engenheiro da obra era o Coronel QEM Cláudio Meirelles, também arquiteto e antigo atirador de fuzil do Exército, e que havia participado do Campeonato Pan-Americano Militar no Panamá em 1968. Posteriormente, foi contratado o Coronel de Engenharia José Tarouco Correa, responsável pela construção de inúmeros estandes nas Guarnições Militares onde foram realizadas as competições de tiro das Olimpíadas do Exército e os Campeonatos de Tiro do Exército, na década de 70. O Coronel Tarouco também possuía uma grande vivência em eventos internacionais, tendo competido como atirador e atuado como técnico da equipe militar brasileira no Panamá.

Por determinação do General Athos, foram enviados à Suíça em 1988 para a aquisição de equipamentos eletrônicos o General-de-Brigada Antônio Porto Real, Diretor da DOM, o Coronel de Artilharia Eduardo Fernandes Ferreira, Assistente do Chefe do DEC, atirador com experiência internacional, tendo participado em várias oportunidades como integrante da equipe das Forças Armadas e pela equipe brasileira da Confederação, além do Sr. Carlos Eduardo Motta, representante da Jabour.

Na Suíça, a comitiva visitou vários estandes de fuzil onde estavam instalados equipamentos eletrônicos da SIUS-ASCOR e da POLYTRONIC, observando e verificando os seus funcionamentos. As duas fábricas também foram visitadas, sendo, então, comparados custos, rusticidade e desempenhos dos equipamentos. Convém lembrar que na época ainda não haviam sido construídos equipamentos eletrônicos para o tiro calibre 22 e de ar comprimido.

Após a escolha dos equipamentos a serem adquiridos, recaiu a preferência nos produtos da POLYTRONIC, que além de oferecer vantagens no preço sobre a concorrente, possibilitou condições para a instalação do tiro de fuzil a 200 metros, sem maiores custos; forneceu, ainda, dois alvos eletrônicos de reserva. É interessante lembrar que cada conjunto de alvos custava US $15.000 e como foram adquiridos 40 alvos, número mínimo necessário de alvos para a realização de campeonatos internacionais do CISM, o valor total com cabeamentos foi de US $ 660.000. Este valor acrescido ao valor dos equipamentos elétricos dos alvos de tiro rápido (silhuetas) US $ 23.717,547 e material e equipamento NCz $200.000,00, perfazendo um total aproximado de US $ 800.000.

A operação seguinte foi trazer esses equipamentos para o Brasil. Para trazer alvos, cabeamentos, materiais e equipamentos eletrônicos para Resende, teve que ser montada uma verdadeira operação de guerra, com o Gabinete do Exército se empenhando diretamente no planejamento e no acompanhamento das ações subseqüentes, tendo que se recorrer à Força Aérea para trazer toneladas de equipamentos distribuídos e montados em “pallets”. Foram necessários vários vôos de Hércules para trazer toda a carga. Contou ainda com o apoio dos Adidos Militares da França, da Inglaterra e Portugal para o desembaraço e providências alfandegárias necessárias, desde a saída do material da Suíça até a chegada ao Brasil.

Convém ressaltar que paralelamente à construção do polígono foi criada uma Seção de Tiro na AMAN, que funcionou desde o início no polígono em construção, recebendo os equipamentos eletrônicos, estudando os manuais e acompanhando a montagem dos alvos pelos técnicos suíços e posteriormente operacionalizando o estande. Foi muito importante a participação do Major Oliva designado como o primeiro chefe da Seção de Tiro da AMAN, na coordenação dos trabalhos de implantação da seção.

Para aqueles que não têm um maior conhecimento sobre a Seção de Tiro da AMAN, os oficiais que integram a Seção são selecionados por seus méritos profissionais e devem preencher vários requisitos. Devem ser ex-integrantes de equipes de tiro da AMAN e/ou do Exército, possuir Curso de Educação Física, excelente perfil profissional e destacados alunos na AMAN. Essa prática persiste até os dias atuais e é um motivo de sucesso e eficiência da Seção.

O polígono finalmente ficou pronto, com instalações físicas compatíveis ao efetivo do corpo de alunos, podendo receber simultaneamente em seus diferentes estandes para a instrução militar quase 1000 cadetes.

3. UTILIZAÇÃO DO POLÍGONO TENENTE GUILHERME PARAENSE
Desde 1989, o polígono vem sediando anualmente as competições da NAVAMAER, entre as três Escolas de Formação, e dos Campeonatos da FORÇAS ARMADAS, promovidos pela Comissão Desportiva Militar do Brasil. Sediou também Campeonato Mundial de Pentatlo Militar do Conselho Internacional de Esporte Militar (CISM). A par disso, estabeleceu uma parceria com a Confederação Brasileira de Tiro Esportivo (CBTE), possibilitando que vários campeonatos e torneios nacionais fossem organizados nas suas linhas. A Copa Tenente Guilherme Paraense, na sua 19º edição, é um exemplo dessa parceria e se constitui no maior evento nacional do Tiro Esportivo.

A equipe integrante da Seção de Tiro vem se desdobrando com suas funções de instrutor de tiro, sobrecarregados com uma carga horária bastante pesada, onde são obrigados a ministrar instruções noturnas de tiro para os cadetes. Paralelamente, buscam aprimorar àqueles cadetes com habilidade para o tiro de competição, formando novos atiradores que mais tarde irão substituí-los nas equipes de tiro do Exército ou nas funções de instrutor da Seção de Tiro.

Hoje a Seção de Tiro, herdeira da antiga equipe de tiro do Exército, que se destacou nos Campeonatos de Tiro Militar no Panamá, na década de 70 e que fez evoluir o Tiro Militar, além de manter um alto padrão técnico do tiro, tem plenas condições de formar excelentes atiradores “snipers”, e inclusive, se destacou nesse curso nos Estados Unidos”, há poucos meses.


Sempre é bom lembrar que no ano passado, o “Polígono Tenente Guilherme Paraense” foi palco uma magnífica Copa Mundial de Resende, sendo considerada um verdadeiro sucesso pelos dirigentes da ISSF, não somente pela qualidade dos atiradores presentes, mas também pela quantidade de participantes. A Copa transcorreu normalmente apesar das dificuldades inerentes a um evento de tal magnitude. Tanto o General-de-Brigada Marcos, Comandante da AMAN, que acompanhou e apoiou todo o desenrolar do evento, como o trabalho de direção eficiente do “chairman” Tenente Coronel Fernando Cardoso, devidamente apoiado de perto pelo Chefe da Seção Tenente Coronel Ricardo Mason e seus auxiliares foram alvos de várias homenagens pelos dirigentes da ISSF.

O Polígono “Tenente Guilherme Paraense” e a Seção de Tiro da AMAN continuam orgulhosamente cumprindo a sua missão para a qual foram criadas, servindo ao Exército Brasileiro, por intermédio do ensino da instrução do tiro militar, formando a cada ano cadetes mais bem preparados nesta modalidade e também se constituindo no “celeiro” permanente de atiradores que se destacam nas competições nacionais e internacionais.

4. ESTANDE DO CNTE
Ao encerrar cabe uma pergunta:
Mesmo considerando a grande importância da construção do Estande do CNTE que sediou os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro e o que irá representar para a evolução do Tiro Esportivo Nacional, sediando futuros eventos internacionais, cabem aqui algumas considerações: o novo estande sem uma infra-estrutura adequada, ou seja, sem uma Seção de Tiro, sem pessoas com experiência e conhecimentos da organização do Tiro Esportivo, certamente terá muitas dificuldades para funcionar até nas competições mais simples.

Outra consideração de natureza histórica: por que deram o nome ao estande da CNTE de Tenente Guilherme Paraense, quando já existe outro, com o mesmo nome há 18 anos, tendo sido reconhecido nacional e internacionalmente, quando da realização do Campeonato do CISM de Pentatlo Militar e da World Cup Resende?

Por que não dar o nome ao estande, prestando também uma legítima homenagem ao Ministro do STF Dr. Afrânio Antônio da Costa – que foi o primeiro medalhista olímpico brasileiro (prata e bronze), Chefe da Delegação Brasileira em Antuérpia, Fundador da Confederação Brasileira de Tiro ao Alvo, representante do Comitê Olímpico Brasileiro nos Jogos Olímpicos de Los Angeles e vencedor dos Jogos Atléticos Sul-americanos de 1922?


A duplicidade do nome do Tenente Guilherme Paraense para os dois estandes não amplia a homenagem ao grande campeão Tenente Paraense, porém perde-se uma boa oportunidade de homenagear àquele que foi o maior representante do Tiro Esportivo Brasileiro em todos os tempos, como atirador e principalmente como dirigente -Ministro Afrânio Antonio da Costa.

 


por Eduardo Ferreira
Recordista e campeão brasileiro de armas longas da CBTE e das Forças Armadas. Ex vice-presidente da CBTE e da federação do DF, ex presidente das federações do RJ e CE, e diretor das federações da PB e RS. Autor de "Arma Longa" e "História do Tiro"
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