Eduardo Ferreira
(ferreiraedu@terra.com.br)

1937 a 1941 – A FBT no período que antecedeu a II Grande Guerra

1. Retorno aos Campeonatos Brasileiros
Após a brilhante participação dos atiradores brasileiros nas Olimpíadas de Berlim, onde por muito pouco o carabineiro José Salvador Trindade não trouxe mais uma medalha para o Brasil, a Federação Brasileira de Tiro (FBT) procurou dar prosseguimento às suas atividades desportivas.

Não dispondo de recursos para organizar eventos nacionais no Rio de Janeiro, a FBT resolveu retornar a uma medida que havia sido utilizada em 1935 e que apresentou bons resultados, mediante a realização de provas por correspondência entre a equipe brasileira e as fortes equipes da Europa. Na época essas provas serviram como motivação para a nossa equipe que se preparava para os Jogos Olímpicos e não tinha verbas para competir no exterior.

A grande maioria das federações nacionais se ressentia de uma política nacional voltada para os esportes no Brasil e algumas, inclusive, tiveram que paralisar as suas atividades no período que antecedeu e durou a II Guerra Mundial pela falta de apoio do governo.

O quadro era bem triste para os atletas: não havia qualquer tipo de recursos para os órgãos desportivos, que por sua vez não podiam contemplar as federações e, assim, muitos esportes foram prejudicados.

Com a sua longa experiência desportiva Dr. Afrânio retomou em 1937 ao sistema de Campeonato Brasileiro por correspondência, agendando provas para o mesmo dia e horário, organizadas por federações estaduais. De posse dos resultados enviados pelas federações filiadas, cabia à Federação Brasileira de Tiro realizar a consolidação dos mesmos, ordená-los e enviar a premiação pelo correio aos vencedores.

Este processo apresentava inúmeras falhas conhecidas, como as diferenças técnicas dos estandes, condições climáticas locais distintas e a falta da presença física do competidor no mesmo estande. A par disso havia uma longa demora para a Federação receber e divulgar os resultados. No entanto foi o artifício utilizado pelo Dr. Afrânio para movimentar o Tiro nesse período que antecedeu à deflagração do grande conflito.

2. Resultados dos Campeonatos
a. 1937 (por correspondência)
1) Carabina 3 Posições – 3 X 20 – 50 metros
• 1º Harvey Dias Villela DF 551
• 2º Antônio Martins Guimarães DF 549
• 3º Daniel Amaral DF 524

2) Revólver – 50 metros (precisão)
• 1º Harvey Dias Villela DF 453
• 2º João Conrado Wolf RS 440
• 3º Álvaro Santos Júnior MG 434

3) Pistola de Guerra (parabellum) – 25 metros (*)
• 1º Harvey Dias Villela DF 273
• 2º Cmte José Thedim DF 266
• 3º Silvino Fernandes Ferreira DF 251

OBS: (*) Esta prova foi introduzida pela FBT e os atiradores deveriam disparar 30 tiros de precisão a 25 metros, utilizando pistolas de guerra (parabellum), modelos: mauser, luger, colt 45, browning, etc.

A desconfiança nos resultados obtidos e as reclamações dos atiradores de fora do Distrito Federal, logo fariam o Presidente Afrânio a mudar de idéia e, assim, foram organizados no Rio de Janeiro pela FBT os campeonatos brasileiros de 1938 e 1940, com os principais resultados:

b. 1938 - Rio de Janeiro – FFC e Vila Militar
1) Carabina 3 Posições – 3 X 20 – 50 metros
• 1º Antônio Martins Guimarães DF 539
• 2º Harvey Dias Villela DF 539
• 3º João Sobocinski PR 529

2) Pistola Livre – 50 metros
• 1º Álvaro Santos Júnior MG 520
• 2º Silvino Fernandes Ferreira DF 519
• 3º Oswaldo Monteiro MG 511

3) Fuzil de Guerra – 3 X 20 – 300 metros
• 1º Harvey Dias Villela DF 475 (NRB)
• 2º Humberto Guimarães DF 412
• 3º Paulo Porto Pires RS 408

c. 1940 – Rio de Janeiro – FFC e Vila Militar
1) Carabina 3 Posições – 3 X 20 – 50 metros
• 1º Harvey Dias Villela DF 562
• 2º Oscar Mangia DF 530
• 3º Antônio Martins Guimarães DF 525

2) Pistola Livre – 50 metros
• 1º Álvaro Santos Júnior MG 519
• 2º Silvino Fernandes Ferreira DF 519
• 3º Oswaldo Monteiro MG 518

3) Revólver – 50 metros
• 1º Oswaldo Monteiro MG 490
• 2º Silvino Fernandes Ferreira DF 480
• 3º. Harvey Dias Villela DF 474

4) Fuzil Livre – 3 X 10 – 300 metros
• 1º Harvey Dias Villela DF 248
• 2º Benício Abreu MG 233
• 3º Oscar Mangia DF 228

Por intermédio dos resultados é possível observar um equilíbrio técnico entre as duas principais federações da época: a Federação Metropolitana (carioca) e a Federação Mineira. A Federação Mineira possuía um grande número de atiradores de arma curta residentes nas cidades de Belo Horizonte e Juiz de Fora e não tinham muitos problemas para se deslocar até o Rio para competir.

Por outro lado, as federações do Paraná e a do Rio Grande do Sul tinham mais dificuldades para se deslocar até o Rio de Janeiro. Naquela época, o meio de transporte utilizado para chegar ao Rio de Janeiro vindo do sul do País era através de longas e cansativas viagens a bordo dos navios do Loyd Brasileiro.

3. Torneio Internacional Brasil X Argentina
Desde as competições realizadas em homenagem ao Centenário da Independência do Brasil, em 1922, o Brasil não promovia um certame internacional de tiro esportivo. Em dezembro de 1941, desembarcava no Rio de Janeiro, a convite da Federação Brasileira de Tiro, uma numerosa delegação procedente da Argentina chefiada pelo Diretor Geral do Tiro Federal Argentino – General Adolfo Aranda.

A delegação, composta por experientes e renomados atiradores argentinos, foi recebida no Palácio do Catete pelo Presidente da República, Getúlio Vargas, em cerimônia simples e informal. Graças ao prestígio político-desportivo do Dr. Afrânio Costa, Juiz do STF, não teve dificuldades para agendar essa visita ao Presidente da República. Na ocasião o General Aranda, agradecendo a honrosa acolhida, ofertou ao Presidente Vargas, em nome do Governo Argentino, uma “rica bandeja de prata”...

Segundo os jornais da época, a competição transcorreu em clima de camaradagem e de confraternização, sagrando-se campeã a equipe brasileira por uma pequena margem de pontos.

À exceção da prova de Pistola Livre, vencida pelo campeão argentino Oscar Bidegain, mais tarde Presidente da Província de Buenos Aires, todas as demais foram vencidas individualmente pelos atiradores brasileiros, tendo inclusive, superados dois recordes nacionais.

“O Brasil levou 31 anos para lavar a alma”... foi a manchete estampada num vespertino esportivo da época, retratando a vitória da equipe brasileira neste torneio internacional, comparando –a com aquela delegação nacional derrotada em 1910, em Buenos Aires, na competição promovida pelo Tiro Federal em homenagem ao centenário da Independência da Argentina.

Os principais resultados individuais foram:
1) Revólver – 50 metros
• Silvino Fernandes Ferreira 485
2) Carabina 3 Posições – 50 metros
• Harvey Dias Villela 564
3) Carabina Deitado – 40 tiros – 50 metros
• Antônio Martins Guimarães 397 (NRB)
4) Fuzil de Guerra – 3 X 20 – 300 metros
• Harvey Dias Villela 499 (NRB)


por Eduardo Ferreira
Recordista e campeão brasileiro de armas longas da CBTE e das Forças Armadas. Ex vice-presidente da CBTE e da federação do DF, ex presidente das federações do RJ e CE, e diretor das federações da PB e RS. Autor de "Arma Longa" e "História do Tiro"
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