Eduardo Ferreira
(ferreiraedu@terra.com.br)

Confederação do Tiro Brasileiro

1. Implantação e crescimento da Confederação

Como havíamos comentado no artigo anterior, a Confederação do Tiro Brasileiro prestou um relevante papel ao tiro brasileiro, tornando-se a entidade responsável pela implantação e divulgação do esporte no País, no início do século XIX.

Além de congregar sociedades de tiro dos Estados de S. Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Pará, a Confederação deu início a um processo de ampliação dessas entidades por intermédio de seu primeiro presidente – Dr. Elysio de Araújo – criando novas sociedades de tiro no interior paulista, no Paraná e Amazonas.

A transferência da sede para o Rio de Janeiro, por determinação do Ministro da Guerra – Marechal Hermes da Fonseca foi muito importante, pois assegurou prestígio e toda infra-estrutura necessária.

Convém lembrar que nessa época não existia qualquer entidade civil encarregada de apoiar e desenvolver os esportes amadores, particularmente o tiro. Além disso, vários educadores, seguindo o modelo europeu, não viam com bons olhos jovens praticando esportes, onde os atletas eram tratados com desdém e com insignificância pela sociedade brasileira.

Graças ao Decreto No. 2067, de 07 de janeiro de 1909, o Exército Brasileiro regulamentou a filiação dos “atiradores” à Confederação, bem como a cessão das linhas de tiro e estandes para as provas constantes dos calendários das sociedades. Foi ainda normatizado o uso do armamento, do velho e conhecido fuzil Mauser, da munição e do pessoal de apoio. O tiro viveu um período de crescimento e de prosperidade.

No entanto, este rápido crescimento provocou ciúmes e divergências entre algumas autoridades militares, culminando com o desfile de 4.000 “atiradores”, na parada cívica de 15 de novembro, promovida pela Confederação no Rio de Janeiro.

O artigo publicado no jornal paulista “Sport”, pelo entusiasmado desportista Luiz da Fonseca, revela com muita propriedade os revezes sofrido pela entidade naquela época: “Satisfazendo a reiterados pedidos de diversas sociedades e desejando mesmo demonstrar publicamente o progresso em que se achava, a Confederação organizou uma grande parada das Linhas de Tiro na Capital da República, em 15 de novembro de 1909.

Quatro mil e tantos atiradores, formados em companhias, corretamente fardados, precedidos de bandas de música próprias e bandas de tambores e cornetas, marchando garbosamente, desfilaram pelas grandes avenidas do Rio de Janeiro sob aclamações do povo.

Foi uma “revelação: a Confederação do Tiro era uma realidade, era uma força”.

Continua o artigo: “Nessa ocasião começou-se a verificar que algumas autoridades militares do exército eram hostis à Confederação e isso em contraste com a boa vontade, carinho mesmo, com que capitães e tenentes instruíram esses quatro mil homens, pois cada sociedade confederada vivia sob a fiscalização de um oficial do exército, em regra um tenente, que também era instrutor dessas companhias.”

Nem mesmo o fato do Marechal Hermes da Fonseca, reorganizador da Confederação e seu maior protetor ter assumido a Presidência da República, trouxe esperanças de melhores dias para a Confederação.
Devido ao período político conturbado o marechal não teve condições de ajudar a entidade.

O receio dos militares e políticos de assistirem aqueles homens armados com fuzil, espalhados pelo Brasil praticando tiro, fez com que a Confederação passasse a ser olhada com restrições e desconfiança.


2. Declínio da CTB

Desconsolado e sem apoio do Ministério da Guerra, o Dr. Elysio de Araújo demitiu-se do cargo em 1911, sendo substituído pelo General Cruz Brilhante que tentou erguer a Confederação sem sucesso. É interessante a comparação que Luiz da Fonseca faz com a Argentina, que também possuía o mesmo tipo de serviço militar, inspirado no modelo suíço: “Todavia, o que é mais edificante e o que mais compunge a alma dos patriotas, é que esse hercúleo esforço que todos fizeram pela vida e prosperidade do tiro no Brasil, esforço que se perdeu, foi frutificar na República da Argentina.

Alarmados com o progresso da instituição do tiro, nos seus tempos áureos, os argentinos vieram conhecê-lo de visu e logo transplantaram para o seu país, onde hoje é uma instituição nacional, muito próspera e protegida pelos poderes públicos e pela população.”


3. Campeonato Pan-Americano de Buenos Aires

Muito embora os nossos atiradores atuais acreditem que a primeira participação internacional da equipe brasileira tenha sido na Antuérpia, a nossa estréia em eventos internacionais se deu realmente em 1910, em Buenos Aires, no Campeonato Pan-Americano promovido pelo Tiro Federal Argentino.

Sobre esse campeonato, Luiz da Fonseca criticou o nosso desempenho e a situação da Confederação: “Ainda ultimamente, em um grande concurso de tiro, na Argentina, em que figuraram todas as nações da América do Sul e também os Estados Unidos, a República da Argentina conquistou o segundo lugar, cabendo o primeiro aos Estados unidos. Ao Brasil coube o penúltimo lugar”
“Se tais fatos nos servissem de lição, era o caso de nos alegrarmos, infelizmente, tal não tem sucedido e não sucederá, pois é com indiferença quase geral que tudo isso sucedeu”

Cabe uma pequena reflexão sobre a nossa fraca participação na Argentina. Deste evento conhecemos muito pouco, quase nada foi escrito sobre a equipe brasileira e seus resultados. Somente recentemente tivemos conhecimento deste fato histórico para o Tiro Brasileiro, através de documentos guardados cuidadosamente pelo Tiro Federal Argentino. Para aqueles que visitarem a galeria do estande do Tiro Federal, verão um quadro comemorativo, em destaque, com referências ao evento realizado.


4. Conclusões

Apesar dessas severas críticas e acusações, os Tiros de Guerra revelaram-se de grande importância para o desenvolvimento do Tiro no Brasil, permitindo que civis e militares, lado a lado, pudessem praticar o esporte em suas linhas, contribuindo para o aprimoramento técnico dos atiradores e possibilitando a organização das primeiras provas nacionais.

Em todo período de sua existência, a Confederação do Tiro brasileiro reuniu cerca de 127 sociedades e mais de 20.000 “atiradores”confederados, prestando inestimáveis serviços à Pátria. Só no Rio Grande do Sul foram construídas 18 linhas pelo Exército e 110 pelas sociedades de tiro de origem germânica.

Com o advento da Primeira Guerra Mundial em 1914, as sociedades de tiro sofreram profundas mudanças. Houve o fechamento e o recolhimento do armamento e munição de algumas sociedades, particularmente, as de origem alemã.

Em 1917, foi criada a Direção Geral dos Tiros de Guerra em substituição à Confederação, mantendo praticamente a mesma estrutura da anterior e permanecendo diretamente ligada ao Ministério da Guerra.

Remanescente daquele tempo e em plena atividade nos dias atuais, encontra-se o Centro Cultural e Desportivo Tiro 4, originário do clube Tiro 4, fundado em 24 de fevereiro de 1906, pelo Coronel Germano Steigleder.

Faço aqui, um apelo aos nossos leitores no sentido de pesquisar e levantar os nomes dos nossos atiradores que participaram do campeonato Pan-Americano em Buenos Aires para preservação da nossa História.



por Eduardo Ferreira
Recordista e campeão brasileiro de armas longas da CBTE e das Forças Armadas. Ex vice-presidente da CBTE e da federação do DF, ex presidente das federações do RJ e CE, e diretor das federações da PB e RS. Autor de "Arma Longa" e "História do Tiro"
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