Eduardo Ferreira
(ferreiraedu@terra.com.br)

TIRO AO REI

Com a crise causada pelas guerras na Europa em meados do século XIX, provocando a falta de alimentos no campo, vários povos decidiram imigrar para a América do Sul para tentar uma melhor sorte. As correntes imigratórias de origem alemã vieram se fixar no Sul do Brasil, em virtude do clima ameno e pela grande extensão de terras desocupadas. Por determinação expressa do Imperador D. Pedro II foram concedidas terras para os colonos, notadamente, em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e no Paraná.

Como foram os primeiros a chegar ao Brasil, os colonos alemães se fixaram às margens dos rios, aproveitando as várzeas existentes para a plantação de seu sustento. Os italianos que imigraram depois dos alemães tiveram que subir a serra gaúcha e catarinense e ali se fixaram.

Conforme o livro da escritora Sueli Maria Vanzuita Petry, “tudo começou com a vinda em 1846 do encarregado pela Sociedade de Proteção ao Imigrante alemão Dr. Hermann Bruno Otto Blumenau para manter contatos com o Governo Imperial Brasileiro para estudar as possibilidades de instalação de novas colônias de imigração alemã no Brasil. No ano de 1848, explorou o vale do Itajaí e constatou a viabilidade desta região para receber a imigração de colonos alemães”.

“Em 02 de setembro de 1850, o Dr. Blumenau utilizando-se dos seus próprios recursos juntamente com 17 imigrantes, deu início à colonização e exploração de terras no Vale do Itajaí”. Rapidamente o povoado cresceu e se transformou em uma pequena vila, não obstante, os moradores mantiveram os mesmos costumes e tradições de suas regiões de origem.

Uma dessas tradições, talvez uma das mais famosas e preservadas até hoje, foi sem dúvida a do “Tiro ao Rei”, promovida pelas sociedades de origem germânica, denominadas “Schützenverein”. As festas do Tiro ao Rei ocorriam uma vez por ano e conforme a sociedade eram realizadas na Páscoa e, em geral, duravam três dias. Grande parte dos habitantes do lugar participava dessas festas, que além do torneio de tiro tinha muita dança, músicas alemãs e rodadas de cerveja, naturalmente patrocinadas pelo “Rei do Tiro”, atirador vitorioso daquele ano.

O Torneio era muito disputado e basicamente consistia em disparar uma série de três tiros, com a arma apoiada sobre um cavalete ou em uma mesa-cavalete. O alvo era uma peça de madeira e possuía 20 zonas devendo ficar a uma distância de 165 metros dos atiradores. O armamento mais utilizado era o fuzil de calibre 8mm, de estojo “estrangulado”. A partir da I Grande Guerra, com as restrições impostas pelo Governo Federal causadas pela desconfiança aos colonos alemães, o fuzil foi substituído pela carabina suíça, calibre .22 – Martini e a distância reduzida a 50 metros.

Ao vencedor da prova de Tiro ao Rei era dado o direito de disparar dois tiros sobre um alvo de madeira, quase sempre artisticamente esculturado e adornado com letras góticas com o nome da sociedade, e que lhe seria entregue após a cerimônia de proclamação do “Rei”. Havia também a disputa para o título de “Rainha do Tiro”, premiando-se a dama que melhor resultado obtivera na prova.

O “Rei” tinha um reinado de um ano e durava até a próxima “Schützenverein”. No ano seguinte, os demais atiradores, todos portando orgulhosamente suas medalhas de tiro costuradas nos jalecos, dirigiam-se à sua residência e saudavam-no com uma salva de tiros. Em seguida, o “Rei” era conduzido com muita distinção até o centro da cidade e sob a escolta de dois “cavaleiros”, respectivamente o segundo e terceiro colocados no torneio passado, dava início ao desfile pelas principais ruas acompanhadas pelo som de uma bandinha típica, recebendo calorosos aplausos de todos os assistentes. À noite, animados pela mesma bandinha e ao som das valsinhas e polkas alemãs, os sócios comemoravam dançando e se divertindo até a madrugada o feito do novo “Rei”.

Atualmente essa prova é realizada por dezenas de clubes, inclusive pela mais antiga sociedade de tiro – “Schützenverein Blumenau”, fundada em 02 de dezembro de 1859 com 54 sócios, nove anos após a fundação da Colônia de Blumenau. Hoje o clube é denominado “Tabajara Tênis Clube” e mantém as tradições daquele tempo.

Ao longo desses anos a prova sofreu algumas mudanças políticas e técnicas devido à proibição do uso do fuzil pelo Governo Federal, no período entre as duas Grandes Guerras Mundiais, bem como a diminuição do alvo, passando a ter dez zonas, redução da distância para 50 metros e utilização de armas mais modernas de calibre .22.

Entre os diversos clubes no Rio Grande do Sul que disputavam as provas do “Tiro ao Rei”, estavam: Associação dos Viajantes Comerciais (caixeiros viajantes), de Porto Alegre e a Sociedade de Atiradores de Novo Hamburgo, entidade fundada em 1892 .


1859 – SCHUTZENVEREIN BLUMENAU
Livro da Escritora Sueli Maria Vanzuita Petry

 


por Eduardo Ferreira
Recordista e campeão brasileiro de armas longas da CBTE e das Forças Armadas. Ex vice-presidente da CBTE e da federação do DF, ex presidente das federações do RJ e CE, e diretor das federações da PB e RS. Autor de "Arma Longa" e "História do Tiro"
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